Pacotes Perdidos
Início  ›  Economia  ›  Logística e Devoluções

Celulares lacrados estão vindo dentro de caixas de 50 euros, e a explicação está num galpão de encomendas não entregues

Produto que exige assinatura na entrega é o que mais falha, e é o que mais sobra no estoque de encomendas não reclamadas. Fui atrás para desmentir e acabei no depósito onde elas param.

Qui. 29 de out. de 2026  |  04:12  —  318.544 👁

Reportagem de Marcelo Arantes, repórter de logística e cadeia de suprimentos  |  Apuração complementar: Núcleo de Dados de Comércio Transfronteiriço

Caixa de papelão aberta com uma caixa de celular lacrada dentro, sobre uma mesa
Celular lacrado dentro do volume original de envio. É nesse estado, sem nenhum manuseio, que a mercadoria não reclamada chega ao leilão.

Uma caixa de 50 euros com um celular lacrado dentro.

Quando eu vi isso pela primeira vez, a minha reação foi a mesma que a sua provavelmente está sendo agora: é mentira, é propaganda, é golpe.

Fui atrás para desmentir. E o que eu encontrei foi mais chato e mais racional do que qualquer teoria: um galpão cheio de encomendas que alguém comprou, pagou e nunca recebeu — e uma lei europeia que proibiu o destino que elas tinham antes.

700 milhões de euros parados em galpões

Nas entregas dentro do mesmo país, a taxa de falha na primeira tentativa fica entre 5% e 8%. No comércio que cruza fronteira, operadores trabalham com faixas de 15% a 30%.

Uma fatia significativa desses volumes nunca encontra o destinatário. E, em dinheiro, o número já foi divulgado.

O estoque europeu de encomendas que nunca chegaram ao destinatário e nunca foram reclamadas por ninguém soma 700 milhões de euros em mercadoria nova, lacrada e parada em galpões.

Agora pense em qual tipo de produto está dentro desse estoque.

Não é o item de cinco euros. É o aparelho que exige assinatura na entrega: celular, tablet, notebook, console, relógio. O entregador não pode deixar com o vizinho, nem na portaria, nem no capacho. Ou a pessoa está em casa, ou o pacote volta.

O item caro tem probabilidade estruturalmente maior de falhar na entrega do que o item barato. Ele está super-representado nesse estoque, não por sorte, mas por regra de transporte.

O pacote tem dono, e o dono não é a loja

A pergunta que todo mundo faz é por que a loja não revende isso. E a resposta é a parte que explica o preço.

No instante em que a compra foi paga, aquele volume deixou de ser estoque da loja. Foi faturado no nome de outra pessoa, deu baixa no inventário, saiu do sistema. E essa pessoa não ficou com ele — devolveu dentro do prazo, ou nunca recebeu porque não foi possível encontrá-la.

Então o volume volta para o centro de triagem, mas não volta para o estoque: vai para uma área separada, de mercadoria que tem dono e não tem destinatário.

Não é um produto da loja esperando comprador. É um produto que já foi comprado, já tem dono, e esse dono não ficou com ele.

E começa a correr um prazo. O depósito espera uma reclamação, um e-mail, um telefone corrigido. Na maioria dos casos, não aparece ninguém — semanas, muitas vezes meses. Passado esse período, o volume vira carga não reclamada, e aí sobram duas saídas: revender ou destruir. Guardar para sempre não existe, porque cada volume parado ocupa a posição que a carga de hoje precisa.

A escolha entre uma saída e outra segue o valor. Perecível e pedido de poucos euros vão direto para a destruição, porque não pagam nem o manuseio. O que sobra para a revenda é o contrário: eletrônicos e produtos de valor alto.

E o conteúdo está perfeito. Lacrado de fábrica, nunca aberto, nunca usado. Não é produto com defeito: são iPhones, notebooks, consoles, fones, relógios inteligentes, em geral itens de valor elevado.

A lei que fechou a porta da destruição

Por muito tempo a saída do setor foi a mais simples e a mais indefensável: trituração, aterro, incineração. Investigações de emissoras públicas na França e no Reino Unido flagraram centros de distribuição destruindo eletrônicos ainda lacrados, simplesmente porque ninguém havia aparecido para buscá-los e o espaço valia mais, no balanço, do que eles.

A reação regulatória começou na França, com uma lei de economia circular que proibiu a destruição de bens de consumo não alimentares invendidos. A União Europeia seguiu na mesma direção.

De repente, a saída mais barata deixou de ser uma saída. Sobrou a outra porta: vender.

Vendido lacrado, e só por quem tem licença

A solução que se consolidou é simples. Em vez de abrir e conferir peça por peça, o depósito agrupa as caixas por peso e tamanho — não por conteúdo, porque ninguém sabe o conteúdo —, monta paletes e leiloa em lote fechado.

Palete carregado de caixas de eletrodomésticos e eletrônicos de marca, envelopado em plástico
Lote fechado antes do leilão. O preço por volume cai justamente porque ninguém sabe o que há dentro.

Só que esse estoque não está à venda para quem quiser. Carga não reclamada é mercadoria de terceiro sob responsabilidade de quem a guarda, e por isso só pode ser repassada a empresas autorizadas a comprá-la. A The Box é uma dessas empresas licenciadas.

E a licença vem com uma cláusula central:

O volume só pode ser revendido lacrado, exatamente como entrou. Abrir para conferir, separar ou escolher o que vai dentro do pacote é descumprimento de licença.

Isso é fiscalizado de perto, e quem é pego abrindo não leva multa: perde a autorização, e sem autorização não há mais acesso a leilão nenhum. Ninguém arrisca a operação inteira pelo conteúdo de uma caixa.

Daí decorrem as duas coisas que mais importam para quem compra. A empresa genuinamente não sabe o que está mandando. E ninguém garimpou antes de você: não existe a etapa em que alguém abre, tira os itens bons e repassa o resto.

O que existe é uma garantia de valor, e ela é a regra que viabiliza o leilão: o valor declarado dos produtos de um lote precisa ser superior ao valor pago por ele. A The Box repassa a mesma garantia ao cliente final — cada caixa é vendida abaixo do valor dos produtos que carrega. Garantia de valor, não de categoria.

O que as pessoas têm encontrado

Nos relatos que circulam em grupos de compradores, o conteúdo varia — mas varia dentro de uma faixa, e essa faixa é mais alta do que a de uma compra comum pela internet.

A maior parte é eletrônico: fones, caixas de som, relógios inteligentes, é comum encontrar também aparelhos de valor alto: celulares, tablets, notebooks, consoles de videogame. Não é o achado raro de uma história isolada — é o tipo de item que esse estoque concentra, e quem acompanha os relatos vê aparecer toda hora.

São justamente os produtos de valor alto que exigem assinatura na entrega. O entregador não pode deixar com o vizinho, nem na portaria, nem no capacho.

Ou seja: o item caro tem probabilidade estruturalmente maior de falhar na entrega do que o item barato. Ele está super-representado nesse estoque, não por sorte, mas por regra de transporte.

Junte isso à triagem que o depósito faz antes do leilão — perecível e pedido de poucos euros vão para a destruição — e o retrato fica claro: este é um estoque concentrado em eletrônico de valor, não um saldão de bugiganga.

Caixa de papelão com um celular lacrado e um carregador de parede na embalagem original
Imagem real fornecida por um cliente da The Box: celular e carregador lacrados na mesma caixa.
Caixa de papelão com um celular lacrado e outros produtos variados ainda nas embalagens
Imagem real fornecida por um cliente da The Box: o conteúdo misturado é a regra, porque ninguém separa por categoria.

Três pessoas que compraram, e o que veio

Conversei com compradores que toparam contar a experiência com detalhe, inclusive quem não tirou a sorte grande. Mudei os nomes a pedido deles.

Igor L., 28 anos, entregador de aplicativo — Belém, PA

"Eu paguei 50 euros numa caixa, porque era o que dava para arriscar naquela semana.

Chegou em três dias. Veio um celular lacrado e um carregador. Eu fiquei com o telefone na mão sem acreditar, pedi para o entregador esperar enquanto eu conferia o número de série.

Era original e nunca tinha sido ativado. Até hoje é o celular que eu uso para trabalhar."

Andreia C., 35 anos, manicure — Fortaleza, CE

"Comigo não veio celular, e eu acho importante dizer isso.

Vieram dois fones, um carregador por indução e um relógio simples. Tudo lacrado, nada quebrado.

Somando os preços em loja, deu mais que o triplo do que eu paguei. Então valeu, só não foi a loteria."

Paulo R., 47 anos, caminhoneiro — Cuiabá, MT

"Pedi duas caixas antes de sair numa viagem longa. Chegou antes de eu pegar a estrada.

Numa veio um tablet lacrado. Na outra, fone e cabo. Dei o tablet para a minha filha e ela usa na escola.

O que me deixou tranquilo foi pagar só quando chegou. Eu já fui enganado comprando antecipado e não quis mais."

Como funciona para comprar

Essa foi a dúvida que mais apareceu, então vale explicar passo a passo, com os detalhes.

1. Você escolhe entre três caixas

A The Box oferece três opções de caixa, segundo nos foi informado: Clássica, Premium e Diamante.

A diferença entre elas não é de categoria de produto — é de peso, de tamanho e do valor que foi pago pelo palete de onde o volume saiu. Palete mais caro na origem gera caixa de faixa mais alta.

Os preços variam entre 35 e 100 euros por caixa, dependendo da opção.

E essa é a única escolha que existe no pedido: categoria não se escolhe, porque ninguém sabe o conteúdo. O que a escolha muda é a faixa — por saírem de paletes mais caros, as caixas Premium e Diamante têm chance maior de trazer itens de valor mais alto.

2. Você informa apenas nome, endereço e telefone

Não entra cartão. Não entra transferência. Não entra dado bancário nenhum. O formulário tem os campos de entrega e nada além disso.

O motivo é que o pagamento é feito somente na entrega. Não existe cobrança no momento do pedido, nem depois — só na porta, quando a caixa chega.

3. O pedido é despachado e chega em 2 a 4 dias

A caixa sai do depósito no lacre em que estava e percorre o caminho inteiro por conta da empresa. Nada é cobrado nesse intervalo.

4. Você confere o pacote e paga na porta

O entregador espera. Você vê o volume, confere que é o que pediu, e só então resolve se paga. É nesse momento que o dinheiro muda de mão, e não antes.

Na prática, isso significa que você não precisa acreditar em nada escrito nesta página. Você recebe, olha e decide ali, com o produto na mão e o dinheiro ainda no bolso.

E se chegar algo quebrado?

Acontece, como acontece em qualquer transporte. O caminho é e-mail com registro fotográfico, e o atendimento trata caso a caso.

E não depende só do atendimento: todo pedido tem 20 dias de garantia, e item quebrado, danificado ou com mau funcionamento é ressarcido integralmente. Por se tratar de itens retornados, a garantia segue regras específicas — explico todas no fim da reportagem.

Receba uma caixa grátis

E aqui chegamos ao motivo pelo qual esta reportagem está saindo agora.

A The Box liberou um desconto especial de fim de ano para os nossos leitores: para cada compra feita no site oficial, a empresa envia mais uma caixa grátis do mesmo lote.

A promoção tem prazo: vale enquanto durarem os estoques do lote atual.

A caixa de brinde sai do mesmo lote da primeira — mesmo palete, mesma origem, mesmo lacre.

E é aí que está o ponto que importa além do preço: cada caixa é um sorteio de conteúdo independente. Duas caixas do mesmo lote dobram a sua chance de cair um item daqueles de valor alto.

Cliente segurando a caixa recebida e uma caixa de celular lacrada Cliente dentro do carro mostrando o celular lacrado que veio na caixa
Imagens enviadas por clientes da The Box no dia do recebimento, com o conteúdo ainda lacrado.

Como o pedido funciona

  • 1. Você escolhe a caixa e informa apenas nome, endereço e telefone. Nenhum dado de pagamento.
  • 2. A segunda caixa é adicionada automaticamente ao pedido, sem custo.
  • 3. O envio sai do depósito e chega em 2 a 4 dias úteis.
  • 4. Você paga ao entregador, na porta, no momento em que recebe.

A garantia de 20 dias

Todo pedido tem 20 dias de garantia, contados do recebimento. Por se tratar de itens retornados, ela segue regras específicas.

Item quebrado, danificado ou com mau funcionamento: entra na garantia e é 100% ressarcido.

Caixa cujo valor dos produtos é inferior ao preço pago: também entra, e o pedido pode ser ressarcido.

Não gostar do que veio: não dá direito a devolução, justamente por ser mercadoria retornada e não um item escolhido num catálogo. Ainda assim, vale falar com o suporte: responde rápido e costuma resolver.

Somando ao pagamento na entrega: você não paga nada até a caixa estar na sua mão e, se vier quebrada ou valer menos do que pagou, o dinheiro volta.

Comentários (147)

Conteúdo publicitário. Os relatos de compradores são individuais e não representam resultado típico. O conteúdo das caixas é desconhecido no momento do envio e varia por lote.

© 2026 — Todos os direitos reservados.